No compasso do tempo, a Terra segue girando, muitas vezes à mercê das tensões provocadas pela própria humanidade, como as ameaças de conflitos globais, os riscos de uma escalada nuclear e o avanço cada vez mais evidente das mudanças climáticas. Em um cenário em que iniciativas como a missão Artemis II, da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, reacendem o desejo humano de explorar o espaço e projetam um futuro além do nosso planeta, cresce também a necessidade de reconhecer que, apesar das ambições interplanetárias, seguimos sendo dependentes da Terra como nosso único lar.
Em meio a discursos duros, como os que envolvem o avanço de programas nucleares e posicionamentos de líderes políticos que ameaçam outras civilizações, o planeta continua resistindo, ainda generoso e capaz de sustentar a vida. O dia 22 de abril, mais do que uma data simbólica, é um chamado à consciência coletiva, um lembrete de que, apesar dos riscos que cercam o futuro, ainda é possível preservar, cuidar e garantir o equilíbrio do único lar que compartilhamos.
Ações do Legislativo
Essa consciência ambiental, que hoje mobiliza diferentes setores da sociedade, também se reflete no âmbito institucional. No Poder Legislativo goiano, ações voltadas à sustentabilidade e ao enfrentamento das mudanças climáticas têm ganhado espaço em debates, eventos e proposições legislativas.
Entre as iniciativas recentes, destaca-se a realização de fóruns e audiências públicas que buscam ampliar o diálogo sobre governança climática e gestão ambiental. Um exemplo foi o Fórum Goiano de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Sustentável, que reuniu representantes do poder público para discutir estratégias mais participativas e alinhadas aos desafios do Estado.
Também foi promovido debate sobre a gestão de recursos hídricos, com foco nos impactos das mudanças climáticas e na crescente preocupação com a escassez de água, reforçando a importância da articulação entre políticas públicas e da participação popular.
No campo legislativo, diversas propostas tramitam com o objetivo de fortalecer a agenda ambiental em Goiás. Entre elas, iniciativas que buscam estruturar políticas de financiamento climático, incentivar a conservação florestal, estabelecer medidas de adaptação às mudanças climáticas em órgãos públicos e eventos de grande porte, além de aprimorar a gestão ambiental no Estado.
Há, ainda, projetos voltados à restauração de ecossistemas degradados e à compensação de emissões de gases de efeito estufa, com foco na recomposição de áreas estratégicas e na promoção do desenvolvimento sustentável.
Parte dessas propostas já avançou no Parlamento, como a criação de diretrizes para restauração ecológica e programas ambientais que incentivam a recuperação de áreas degradadas e a preservação do Cerrado. Outras medidas foram incorporadas à legislação estadual, ampliando instrumentos voltados à eficiência energética, à proteção da biodiversidade e à conscientização da população sobre a urgência das mudanças climáticas.
Além das proposições legislativas, o reconhecimento de boas práticas também integra essa agenda. A Comenda Washington Novaes, concedida anualmente, destaca personalidades e instituições que atuam na defesa do meio ambiente, homenageando o legado de um dos principais nomes do jornalismo ambiental brasileiro.
Origem da data
A mobilização em torno da preservação ambiental ganhou força ao longo do tempo e hoje envolve governos, empresas, instituições e cidadãos em diversas partes do mundo, todos em busca de caminhos para um desenvolvimento mais sustentável. Nesse contexto, o Dia da Terra se consolidou como um marco global de reflexão e conscientização, reforçando a necessidade de repensar a relação da humanidade com a natureza.
A data, celebrada em 22 de abril, foi oficialmente reconhecida em 2009 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que instituiu o Dia Internacional da Mãe Terra, destacando a preocupação global com os impactos da ação humana sobre o planeta e incentivando práticas voltadas ao equilíbrio ambiental.
Essa preocupação, no entanto, não é recente. Ainda na década de 1960, o senador norte-americano Gaylord Nelson já alertava para os riscos da degradação ambiental, sendo responsável por mobilizar milhões de pessoas em 1970 em uma das maiores manifestações da história dos Estados Unidos.
Apesar dos alertas ao longo das décadas, os indicadores ambientais mostram o agravamento do cenário. As emissões globais de dióxido de carbono cresceram de forma expressiva ao longo do último século, intensificando o efeito estufa e contribuindo para o aumento das temperaturas globais, com impactos diretos sobre ecossistemas e populações em todo o mundo.
Extremos climáticos
O Brasil enfrentou, em 2025, um dos períodos mais severos do ponto de vista climático das últimas décadas. Segundo relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o ano foi marcado por recordes de temperatura, chuvas intensas com alto impacto urbano e uma estiagem prolongada que atingiu centenas de municípios.
Ao longo do ano, foram registradas sete ondas de calor, com destaque para o município de Quaraí (RS), que atingiu 43,8°C. Capitais como Rio de Janeiro e São Paulo também enfrentaram temperaturas históricas. Em contrapartida, o inverno apresentou episódios de frio intenso, com sete ondas registradas e temperaturas negativas no Sul do país, evidenciando a crescente variabilidade climática.
Os eventos extremos não se limitaram às temperaturas. Episódios de chuvas intensas provocaram impactos significativos, especialmente nas regiões sudeste e sul. Enquanto isso, parte significativa do território nacional enfrentou seca severa.
Em novembro, oito unidades da federação, incluindo Goiás, registraram estiagem em 100% de seus territórios. Em algumas regiões, o déficit hídrico persistiu por até dez meses consecutivos, pressionando sistemas de abastecimento e reforçando a necessidade de gestão eficiente dos recursos hídricos.
Diante desse cenário, o monitoramento de riscos se tornou ainda mais essencial. Em 2025, o Cemaden emitiu mais de 2.500 alertas de risco geo-hidrológico para mais de mil municípios monitorados. Foram registradas quase 1.500 ocorrências relacionadas a eventos como inundações, enxurradas e deslizamentos de terra.
Mesmo sem a influência direta de fenômenos como El Niño ou La Niña, o número de ocorrências permaneceu elevado, indicando que o aquecimento global tem ampliado a frequência e a intensidade dos eventos extremos no país.
O cenário brasileiro acompanha uma tendência mundial. Dados do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus apontam que 2025 foi o terceiro ano mais quente já registrado no planeta, com temperatura média 1,47°C acima dos níveis pré-industriais.
Relatório recente da Organização Meteorológica Mundial reforça que o planeta vive um estado de emergência climática, com aumento contínuo da concentração de gases de efeito estufa e aceleração do aquecimento global. O desequilíbrio energético da Terra, indicador que mede o acúmulo de calor no sistema climático, atingiu o maior nível desde o início dos registros, em 1960.
Esse processo tem impactos diretos, como o aquecimento dos oceanos, o derretimento de geleiras e a elevação do nível do mar, além de efeitos sobre a saúde pública, como a ampliação do risco de doenças transmitidas por vetores, a exemplo da dengue.
Esperança
Apesar do cenário preocupante, há sinais de avanço no combate ao desmatamento. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que a área desmatada na Amazônia caiu para 5.796 km² entre agosto de 2024 e julho de 2025, uma redução de mais de 11% em relação ao período anterior. No Cerrado, a queda foi semelhante, com recuo de 11,49%.
Desde 2022, a redução acumulada do desmatamento chega a cerca de 50%, resultado de ações de fiscalização, monitoramento por satélite e reestruturação das políticas ambientais. Esse avanço evitou a emissão de aproximadamente 733,9 milhões de toneladas de gases de efeito estufa.
Ainda assim, especialistas apontam que o desafio permanece, especialmente diante da necessidade de consolidar políticas públicas, fortalecer a fiscalização e ampliar iniciativas que tornem a preservação ambiental economicamente viável.
