quinta-feira, fevereiro 26, 2026

Racismo em campo: De Pelé a Vini Jr., por que a ferida é mais embaixo?


O roteiro desgastante se repetiu na tela da televisão em fevereiro de 2026. Durante o jogo entre Real Madrid e Benfica, pela Liga dos Campeões, Vinícius Júnior marcou o gol da vitória espanhola. No entanto, em vez de uma celebração esportiva, o mundo assistiu ao atacante argentino Gianluca Prestianni supostamente chamá-lo de “macaco”, forçando a paralisação da partida sob o protocolo antirracismo. Esse episódio apaga o brilho da competição e evidencia que o talento excepcional ainda disputa espaço com o preconceito primário.

Com cerca de vinte episódios de abusos denunciados pelo jogador nos últimos anos, a Uefa abriu uma investigação oficial, enquanto parte da imprensa estrangeira reage com uma indignação pontual. No entanto, para a população brasileira que lida diariamente com as diversas camadas da desigualdade racial, a surpresa com esses ataques é nula. Tratar essas violências como “casos isolados” ou justificá-las pelo calor da partida é uma forma conveniente de eximir as instituições de suas responsabilidades punitivas.

O que acontece com Vinícius Júnior demonstra que o buraco é muito mais embaixo. O verdadeiro incômodo de certas torcidas e federações europeias não está nos dribles provocativos, mas na incapacidade crônica de tolerar um jovem negro e periférico no topo da pirâmide financeira, que não abre mão de ser respeitado. Os números expõem essa barreira estrutural: embora os jogadores negros representem uma fatia enorme da força de trabalho em campo, chegando a compor mais de 43% dos atletas na principal liga inglesa (Premier League), por exemplo, eles ocupam menos de 5% dos cargos de treinadores, executivos e dirigentes na Europa. O negro é tolerado para entreter, mas barrado na hora de comandar.

Para compreender a importância dessa rebeldia no futebol atual, é essencial resgatar a história. A crítica esportiva costuma julgar Pelé com as lentes do presente, afirmando que o Rei do Futebol aguentava insultos e bananas atiradas nos gramados de forma passiva. Essa cobrança ignora o peso esmagador de sobreviver nas décadas de 1950 e 1960, sob o véu do falso mito da “democracia racial” e, posteriormente, sob a mordaça da ditadura militar.

Ainda assim, a prova documental demonstra que Pelé nunca foi uma figura alienada. Documentos resgatados pelo Senado Federal mostram que, ao assumir o Ministério dos Esportes em 1995, ele cravou a corajosa frase: “negro vota em negro”, convocando a população marginalizada a eleger seus representantes no Congresso. Além disso, comprou uma briga monumental com a Fifa e os clubes para acabar com a “lei do passe”, denunciando-a como uma escravidão moderna que prendia o trabalhador da bola. A luta contra a subjugação no esporte já acontecia nos bastidores; a guerra atual apenas mudou de formato.

A grande diferença da era de Vinícius Júnior é a sua recusa frontal ao pacto do silêncio imposto às gerações anteriores. Ele não espera o jogo acabar para reclamar no vestiário, mas aponta o dedo na cara dos ofensores no exato momento da agressão, exige a paralisação do jogo, mobiliza colegas, como Kylian Mbappé, que confirmou os insultos em Lisboa, e transforma o gramado em uma poderosa tribuna política internacional. Essa coragem de paralisar um espetáculo bilionário é o que mais assusta a estrutura conservadora.

A postura intransigente transcendeu as quatro linhas e se tornou questão de Estado. No Brasil, o Congresso Nacional acelera a votação do “PL Vini Jr.”, projeto que visa criar protocolos rigorosos e punições definitivas de combate ao racismo nas arenas esportivas do país. O que no passado era minimizado como “briga de torcida”, hoje altera a legislação de uma nação inteira.

Para os jovens do Distrito Federal, que suam a camisa nos campos de terra, alimentando o sonho de mudar a realidade de suas famílias, a ponte entre Pelé e Vini Jr. é uma lição prática sobre o mundo real. Eles aprendem desde cedo que a ascensão social e o talento não apagam a cor da pele aos olhos de uma sociedade colonial. Vinícius Júnior não cobra apenas respeito pela própria honra, porém exige a conta de uma dívida histórica. O alvo mudou ao longo das décadas, mas a mensagem permanece: não basta alcançar o topo do mundo se a estrutura global ainda insiste em tratar parte da humanidade como cidadãos de segunda classe.

*João Victor Dias de Souza é estudante de Sociologia na Universidade de Brasília (UnB), atua como Educador Social e é pesquisador no Grupo de Ciências Sociais Latino-Americanas (CNPq/UnB), com formação em análise de dados raciais pela ENAP.

Referências Bibliográficas / Fontes Utilizadas:

BBC News Brasil. Em oito anos no Real Madrid, Vini Jr. denunciou 20 casos de racismo. Publicado em 18 fev. 2026.

Agência Brasil. Vini Jr marca golaço e denuncia caso de racismo em Liga dos Campeões. Publicado em 17 fev. 2026.

Poder360. Pedido de urgência pode acelerar PL Vini Jr. na Câmara.

Senado Notícias (Agência Senado). Papéis históricos do Senado mostram luta de Pelé contra o racismo: ‘Negro vota em negro’. Publicado em 3 fev. 2023.

Black Footballers Partnership



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O roteiro desgastante se repetiu na tela da televisão em fevereiro de 2026. Durante o jogo entre Real Madrid e Benfica, pela Liga dos Campeões, Vinícius Júnior marcou o gol da vitória espanhola. No entanto, em vez de uma celebração esportiva, o mundo assistiu ao atacante argentino Gianluca Prestianni supostamente chamá-lo de “macaco”, forçando a paralisação da partida sob o protocolo antirracismo. Esse episódio apaga o brilho da competição e evidencia que o talento excepcional ainda disputa espaço com o preconceito primário.

Com cerca de vinte episódios de abusos denunciados pelo jogador nos últimos anos, a Uefa abriu uma investigação oficial, enquanto parte da imprensa estrangeira reage com uma indignação pontual. No entanto, para a população brasileira que lida diariamente com as diversas camadas da desigualdade racial, a surpresa com esses ataques é nula. Tratar essas violências como “casos isolados” ou justificá-las pelo calor da partida é uma forma conveniente de eximir as instituições de suas responsabilidades punitivas.

O que acontece com Vinícius Júnior demonstra que o buraco é muito mais embaixo. O verdadeiro incômodo de certas torcidas e federações europeias não está nos dribles provocativos, mas na incapacidade crônica de tolerar um jovem negro e periférico no topo da pirâmide financeira, que não abre mão de ser respeitado. Os números expõem essa barreira estrutural: embora os jogadores negros representem uma fatia enorme da força de trabalho em campo, chegando a compor mais de 43% dos atletas na principal liga inglesa (Premier League), por exemplo, eles ocupam menos de 5% dos cargos de treinadores, executivos e dirigentes na Europa. O negro é tolerado para entreter, mas barrado na hora de comandar.

Para compreender a importância dessa rebeldia no futebol atual, é essencial resgatar a história. A crítica esportiva costuma julgar Pelé com as lentes do presente, afirmando que o Rei do Futebol aguentava insultos e bananas atiradas nos gramados de forma passiva. Essa cobrança ignora o peso esmagador de sobreviver nas décadas de 1950 e 1960, sob o véu do falso mito da “democracia racial” e, posteriormente, sob a mordaça da ditadura militar.

Ainda assim, a prova documental demonstra que Pelé nunca foi uma figura alienada. Documentos resgatados pelo Senado Federal mostram que, ao assumir o Ministério dos Esportes em 1995, ele cravou a corajosa frase: “negro vota em negro”, convocando a população marginalizada a eleger seus representantes no Congresso. Além disso, comprou uma briga monumental com a Fifa e os clubes para acabar com a “lei do passe”, denunciando-a como uma escravidão moderna que prendia o trabalhador da bola. A luta contra a subjugação no esporte já acontecia nos bastidores; a guerra atual apenas mudou de formato.

A grande diferença da era de Vinícius Júnior é a sua recusa frontal ao pacto do silêncio imposto às gerações anteriores. Ele não espera o jogo acabar para reclamar no vestiário, mas aponta o dedo na cara dos ofensores no exato momento da agressão, exige a paralisação do jogo, mobiliza colegas, como Kylian Mbappé, que confirmou os insultos em Lisboa, e transforma o gramado em uma poderosa tribuna política internacional. Essa coragem de paralisar um espetáculo bilionário é o que mais assusta a estrutura conservadora.

A postura intransigente transcendeu as quatro linhas e se tornou questão de Estado. No Brasil, o Congresso Nacional acelera a votação do “PL Vini Jr.”, projeto que visa criar protocolos rigorosos e punições definitivas de combate ao racismo nas arenas esportivas do país. O que no passado era minimizado como “briga de torcida”, hoje altera a legislação de uma nação inteira.

Para os jovens do Distrito Federal, que suam a camisa nos campos de terra, alimentando o sonho de mudar a realidade de suas famílias, a ponte entre Pelé e Vini Jr. é uma lição prática sobre o mundo real. Eles aprendem desde cedo que a ascensão social e o talento não apagam a cor da pele aos olhos de uma sociedade colonial. Vinícius Júnior não cobra apenas respeito pela própria honra, porém exige a conta de uma dívida histórica. O alvo mudou ao longo das décadas, mas a mensagem permanece: não basta alcançar o topo do mundo se a estrutura global ainda insiste em tratar parte da humanidade como cidadãos de segunda classe.

*João Victor Dias de Souza é estudante de Sociologia na Universidade de Brasília (UnB), atua como Educador Social e é pesquisador no Grupo de Ciências Sociais Latino-Americanas (CNPq/UnB), com formação em análise de dados raciais pela ENAP.

Referências Bibliográficas / Fontes Utilizadas:

BBC News Brasil. Em oito anos no Real Madrid, Vini Jr. denunciou 20 casos de racismo. Publicado em 18 fev. 2026.

Agência Brasil. Vini Jr marca golaço e denuncia caso de racismo em Liga dos Campeões. Publicado em 17 fev. 2026.

Poder360. Pedido de urgência pode acelerar PL Vini Jr. na Câmara.

Senado Notícias (Agência Senado). Papéis históricos do Senado mostram luta de Pelé contra o racismo: ‘Negro vota em negro’. Publicado em 3 fev. 2023.

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