quarta-feira, fevereiro 4, 2026

Quem serão os primeiros a pagar a conta do BRB? Os servidores é claro!


Quando o escândalo do BRB começou a ganhar corpo, muita gente correu para procurar culpados abstratos: “o mercado”, “a conjuntura”, “a pandemia”, “a crise global”. Mas há uma pergunta muito mais simples — e muito mais incômoda — que ainda resiste a ser feita: quem, de fato, sustenta o BRB?

A resposta não está em Brasília no sentido político. Está em Brasília no sentido literal: na folha de pagamento dos servidores públicos do Distrito Federal.

O BRB nunca foi um banco público como os outros. Ele não vive de captação pulverizada nem de grande base privada diversificada. Ele vive de algo muito mais previsível, muito mais estável e muito mais valioso: salários pingando todo mês. Salários que entram automaticamente, não negociam taxa, não fogem em crise e não fazem retirada em massa por pânico.

É esse dinheiro que garante o fluxo de caixa. É esse dinheiro que dá lastro para alavancagem. É esse dinheiro que permite ao banco emitir dívida, captar recursos no mercado e multiplicar, em várias vezes, o valor originalmente depositado. Banco funciona assim. E o BRB funciona ainda melhor — porque seus correntistas principais não têm como sair.

Os números ajudam a entender o tamanho da engrenagem.

O caixa e equivalentes de caixa do BRB giram em torno de R$ 7,1 bilhões. Os depósitos totais somam cerca de R$ 48,6 bilhões. Estimativas conservadoras indicam que entre 20% e 30% desses depósitos estão diretamente ligados a contas de servidores do GDF, CLDF e TCDF. Estamos falando de algo entre R$ 10 e R$ 15 bilhões.

Isso não é detalhe contábil. É o coração do banco.

Do outro lado do balanço, a dependência é ainda mais explícita. A carteira total de crédito do BRB chega a R$ 59,4 bilhões. Desse montante, R$ 32,1 bilhões são de crédito consignado — 54,1% da carteira inteira. E consignado, no BRB, tem nome e sobrenome: servidor público.

Mesmo sendo prudente, é razoável estimar que 80% a 90% dessa carteira consignada esteja concentrada em servidores do DF. Algo entre R$ 25 e R$ 29 bilhões. Some a isso os empréstimos diretos a pessoas físicas — muitos deles também para servidores — e o retrato fica ainda mais claro: o servidor não é apenas cliente; é a base estrutural do banco.

É por isso que o BRB sempre foi agressivo na oferta de crédito para esse público. Não por generosidade, mas por cálculo. O salário médio do servidor do DF gira em torno de R$ 15 mil brutos. É renda previsível, recorrente, com baixíssimo risco de inadimplência estrutural. Nenhuma torcida organizada, nenhum patrocínio esportivo, nenhum marketing nacional entrega isso.

O problema começa quando esse modelo — saudável em tese — vira combustível para aventura financeira.

O BRB só se meteu em operações estranhas, compras mal explicadas e negócios de alto risco porque tinha caixa. E tinha caixa porque alguém o alimentava todos os meses. Esse alguém não é o investidor institucional, que entra e sai conforme o humor do mercado. Não é o próprio GDF, que pode redistribuir recursos. É o servidor, cujo salário cai automaticamente na conta.

Quando o Banco Central interveio e o rombo começou a aparecer, os primeiros movimentos foram previsíveis: investidores se protegeram, ajustes de portfólio foram feitos, o discurso oficial tentou ganhar tempo. Mas há um elo da corrente que não tem como se mexer.

O servidor não consegue tirar seu salário do BRB antes de ele cair. Não consegue escolher outro banco para receber sem atravessar burocracias. Não consegue se blindar do risco sistêmico. Ele está preso ao fluxo.

E, como se não bastasse, esse mesmo servidor já chega enfraquecido. Desde 2015, carreiras inteiras não tiveram recomposição real. Desde 2008, o poder de compra encolheu. A inflação comeu salário. A pandemia forçou renegociações em massa. Muitos créditos consignados hoje são, na prática, juros sobre juros, renegociações sucessivas disfarçadas de fôlego.

É nesse contexto que o governo começa a falar em “aperto no cinto”, suspender licença-prêmio, atrasar pagamento, segurar benefício. Não porque a folha estourou — os dados mostram que o Executivo está em 41,9% da RCL, longe do teto da LRF. Mas porque alguém precisa sustentar o impacto do desastre bancário.

E quem sempre sustenta?

O servidor é o primeiro a pagar porque é o mais fácil de cobrar. Porque não foge. Porque não reage como mercado. Porque não tem alternativa imediata. Porque é, ao mesmo tempo, fonte de funding e alvo de ajuste.

No fundo, o escândalo do BRB escancara uma perversão silenciosa: um banco público que usa o servidor como base de sustentação para assumir riscos que o próprio servidor jamais aprovaria se tivesse voz na decisão.

Quando a conta chega, ela não vem em forma de CPI para quem ganha salário fixo. Ela vem em forma de benefício suspenso, salário atrasado, crédito mais caro e poder de compra corroído.

O servidor não assinou contrato nenhum com o Banco Master. Não participou da negociação. Não escolheu a estratégia. Mas, como sempre, vai pagar a fatura.

Não por culpa. Mas por conveniência.



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Quando o escândalo do BRB começou a ganhar corpo, muita gente correu para procurar culpados abstratos: “o mercado”, “a conjuntura”, “a pandemia”, “a crise global”. Mas há uma pergunta muito mais simples — e muito mais incômoda — que ainda resiste a ser feita: quem, de fato, sustenta o BRB?

A resposta não está em Brasília no sentido político. Está em Brasília no sentido literal: na folha de pagamento dos servidores públicos do Distrito Federal.

O BRB nunca foi um banco público como os outros. Ele não vive de captação pulverizada nem de grande base privada diversificada. Ele vive de algo muito mais previsível, muito mais estável e muito mais valioso: salários pingando todo mês. Salários que entram automaticamente, não negociam taxa, não fogem em crise e não fazem retirada em massa por pânico.

É esse dinheiro que garante o fluxo de caixa. É esse dinheiro que dá lastro para alavancagem. É esse dinheiro que permite ao banco emitir dívida, captar recursos no mercado e multiplicar, em várias vezes, o valor originalmente depositado. Banco funciona assim. E o BRB funciona ainda melhor — porque seus correntistas principais não têm como sair.

Os números ajudam a entender o tamanho da engrenagem.

O caixa e equivalentes de caixa do BRB giram em torno de R$ 7,1 bilhões. Os depósitos totais somam cerca de R$ 48,6 bilhões. Estimativas conservadoras indicam que entre 20% e 30% desses depósitos estão diretamente ligados a contas de servidores do GDF, CLDF e TCDF. Estamos falando de algo entre R$ 10 e R$ 15 bilhões.

Isso não é detalhe contábil. É o coração do banco.

Do outro lado do balanço, a dependência é ainda mais explícita. A carteira total de crédito do BRB chega a R$ 59,4 bilhões. Desse montante, R$ 32,1 bilhões são de crédito consignado — 54,1% da carteira inteira. E consignado, no BRB, tem nome e sobrenome: servidor público.

Mesmo sendo prudente, é razoável estimar que 80% a 90% dessa carteira consignada esteja concentrada em servidores do DF. Algo entre R$ 25 e R$ 29 bilhões. Some a isso os empréstimos diretos a pessoas físicas — muitos deles também para servidores — e o retrato fica ainda mais claro: o servidor não é apenas cliente; é a base estrutural do banco.

É por isso que o BRB sempre foi agressivo na oferta de crédito para esse público. Não por generosidade, mas por cálculo. O salário médio do servidor do DF gira em torno de R$ 15 mil brutos. É renda previsível, recorrente, com baixíssimo risco de inadimplência estrutural. Nenhuma torcida organizada, nenhum patrocínio esportivo, nenhum marketing nacional entrega isso.

O problema começa quando esse modelo — saudável em tese — vira combustível para aventura financeira.

O BRB só se meteu em operações estranhas, compras mal explicadas e negócios de alto risco porque tinha caixa. E tinha caixa porque alguém o alimentava todos os meses. Esse alguém não é o investidor institucional, que entra e sai conforme o humor do mercado. Não é o próprio GDF, que pode redistribuir recursos. É o servidor, cujo salário cai automaticamente na conta.

Quando o Banco Central interveio e o rombo começou a aparecer, os primeiros movimentos foram previsíveis: investidores se protegeram, ajustes de portfólio foram feitos, o discurso oficial tentou ganhar tempo. Mas há um elo da corrente que não tem como se mexer.

O servidor não consegue tirar seu salário do BRB antes de ele cair. Não consegue escolher outro banco para receber sem atravessar burocracias. Não consegue se blindar do risco sistêmico. Ele está preso ao fluxo.

E, como se não bastasse, esse mesmo servidor já chega enfraquecido. Desde 2015, carreiras inteiras não tiveram recomposição real. Desde 2008, o poder de compra encolheu. A inflação comeu salário. A pandemia forçou renegociações em massa. Muitos créditos consignados hoje são, na prática, juros sobre juros, renegociações sucessivas disfarçadas de fôlego.

É nesse contexto que o governo começa a falar em “aperto no cinto”, suspender licença-prêmio, atrasar pagamento, segurar benefício. Não porque a folha estourou — os dados mostram que o Executivo está em 41,9% da RCL, longe do teto da LRF. Mas porque alguém precisa sustentar o impacto do desastre bancário.

E quem sempre sustenta?

O servidor é o primeiro a pagar porque é o mais fácil de cobrar. Porque não foge. Porque não reage como mercado. Porque não tem alternativa imediata. Porque é, ao mesmo tempo, fonte de funding e alvo de ajuste.

No fundo, o escândalo do BRB escancara uma perversão silenciosa: um banco público que usa o servidor como base de sustentação para assumir riscos que o próprio servidor jamais aprovaria se tivesse voz na decisão.

Quando a conta chega, ela não vem em forma de CPI para quem ganha salário fixo. Ela vem em forma de benefício suspenso, salário atrasado, crédito mais caro e poder de compra corroído.

O servidor não assinou contrato nenhum com o Banco Master. Não participou da negociação. Não escolheu a estratégia. Mas, como sempre, vai pagar a fatura.

Não por culpa. Mas por conveniência.



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