O escândalo da compra do Banco Master pelo BRB não é um episódio administrativo. É um divisor de águas político no Distrito Federal.
Há Polícia Federal já abriu inquérito por possível gestão fraudulenta no BRB.
Há relatório de auditoria forense.
Há menção a irregularidades em operações.
Há indícios de tentativas de contornar cláusulas de transparência.
Há movimentações suspeitas em conselhos.
Há pressão política documentada.
Porém…
O Brasil tem uma longa tradição de escândalos que evaporam no tempo. Investigações que começam ruidosas e terminam silenciosas. Processos que se arrastam até a prescrição. Decisões técnicas que nunca chegam. Ninguém é formalmente condenado. Ninguém é oficialmente culpado. O sistema se reorganiza — e segue.
É possível que isso aconteça aqui?
É.
Mas há um detalhe que muitos parecem esquecer: justiça institucional não é a única forma de julgamento.
A operação do BRB não foi um erro pequeno. Não foi um equívoco operacional. Foi uma decisão política de altíssimo risco, sustentada por força política, empurrada mesmo sob alertas públicos, defendida mesmo diante de sinais claros de inconsistência.
O resultado? Precisa listar?
Banco Central intervindo;
Polícia Federal investigando;
Prejuízo que começou em R$ 4 bilhões (quee pode ser muito maior);
IPREV exposto;
Possível necessidade de recomposição com dinheiro público;
Risco real de impacto no Tesouro do DF;
Risco de o BRB sofrer intervenção;
Risco de ser federalizado;
Risco – sim – de ser liquidado.
Isso não é narrativa. É matemática.
Um banco público não chega perto da falência por acaso. Ele chega por decisões.
E decisões têm donos.
O governador Ibaneis Rocha não foi espectador.
Há relatos de pressão política.
Há articulações para conselhos.
Há indicações estratégicas no período exato das operações com o Master.
Há uma tentativa clara de empurrar o negócio mesmo quando o mercado já desconfiava da qualidade dos ativos.
E quando tudo começou a desmoronar, veio o discurso padrão: “ninguém sabia”, “foi técnico”, “não há prova”.
Pode ser que, juridicamente, a engrenagem não produza punição.
Pode ser que o processo se dilua.
Pode ser que a responsabilização penal nunca aconteça.
Mas existe outro julgamento que não depende de tribunal.
As urnas.
E aqui vai a parte que muitos subestimam:
O eleitor pode até ter memória curta para escândalos. Mas ele não esquece quando o impacto bate no bolso, no serviço público, na aposentadoria, no orçamento da cidade.
Se o BRB precisar de aporte bilionário do GDF, isso não será invisível.
Se o IPREV precisar ser socorrido com dinheiro da Fonte 100, isso não será invisível.
Se obras pararem, salários atrasarem, serviços encolherem para recompor caixa, isso não será invisível.
A conta aparece.
E campanha eleitoral não apaga rombo.
Não adianta encher a cidade de viadutos que ligam um engarrafamento ao outro. Não adianta inaugurar concreto se a base financeira do governo foi corroída por uma aposta temerária. Isso não compensa governança desastrosa.
E não, o discurso moralista de ocasião não resolverá essa equação.
Celina Leão tenta se vender como direita conservadora, enquanto seu partido defende publicamente Dias Toffoli. Tenta se descolar do governo, mas constrói sua candidatura sobre o legado desse mesmo governo. Tenta herdar o eleitorado bolsonarista, que não perdoará o fato de estar ancorada politicamente no mesmo grupo que empurrou o BRB para o maior escândalo financeiro da história do Brasil.
Isso não é detalhe. É contradição.
E aqui vai o ponto central:
Ledo engano de quem acredita que é possível forçar uma operação dessa magnitude, expor um banco público a ativos suspeitos, gerar um buraco potencialmente bilionário — e sair ileso politicamente.
A Justiça pode falhar.
Pode demorar.
Pode não punir ninguém.
Mas eleição é julgamento direto.
E nesse julgamento não há habeas corpus, não há embargos, não há prescrição.
Há memória política.
Ibaneis não será julgado apenas nos autos.
Será julgado nas urnas, e Celina a reboque.
Porque uma coisa é certa:
Banco público não quase quebra por acaso.
E eleitor pode até perdoar erro.
Mas dificilmente perdoa quando percebe que pagará a conta.
