sexta-feira, outubro 16, 2026

Lula e o puro suco do populismo e do cinismo


Pela primeira vez em mais de duas décadas atrás nas pesquisas, o petista larga mão de limites. Amplia benesses estatais na reta final, empurra pauta populista no Congresso e, na sabatina do JN, diz o que sempre combateu — inclusive que “não sabia” que o Bolsa Família não tinha reajuste.

Na reta final do segundo turno, Lula se vê numa situação que não enfrentava há mais de vinte anos: atrás nas pesquisas. A reação é a de quem decide usar todas as armas — as possíveis, as improváveis e as que a própria base sempre tratou como inaceitáveis. O critério deixou de ser coerência ou conta pública. Passou a ser apenas o voto.

A conta que explode depois da urna

O primeiro movimento é o clássico do populismo de reta final: ampliar benesses estatais com custo alto e pagamento diferido. O aumento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, anunciado a dezessete dias do primeiro turno, é o exemplo mais visível. Duas semanas antes, a proposta de Orçamento de 2027 enviada ao Congresso não previa reajuste — o valor permaneceria em R$ 600. O último aumento significativo do benefício havia sido dado por Jair Bolsonaro em 2022, também a cem dias da eleição, e foi chamado de eleitoreiro pela oposição da época.

Na sabatina do Jornal Nacional, Lula afirmou que “não sabia” que o programa não tinha sido reajustado no terceiro mandato. Disse que confrontou ministros e que “é inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar”. O Orçamento já estava no Congresso sem o aumento. O anúncio veio depois. O cinismo não está só na data; está na afirmação de surpresa sobre uma marca histórica do próprio governo.

O mesmo padrão se repete em outras benesses e na pressão por pautas populistas no Congresso. A máquina e o arranjo de Brasília empurram o que for necessário. Se as contas explodem daqui a um ano, se a dívida cresce, se o juro sobe e a inflação volta a corroer o salário de quem recebeu o benefício, tanto faz. O cálculo declarado é o de ganhar a eleição. O custo fica para as mesmas famílias que hoje recebem a “benção”.

O que era impensável na sabatina

Na noite de quinta-feira, no Jornal Nacional, Lula disse o que a militância sempre combateu. Sobre maioridade penal: “Enquanto cidadão brasileiro, [sobre] todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir maioridade para crimes hediondos”. Aliados trataram a fala como “ponto alto” da sabatina — necessária para fechar flanco com a campanha de Flávio Bolsonaro. O PT não fechou questão. A PEC da Segurança que previa a redução gerou divergência interna e teve votação adiada. O posicionamento público, porém, veio na reta final.

No mesmo programa, ele afirmou que Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques “estão implicados” no caso Banco Master. “Tá todo mundo implicado.” Defendeu investigação ampla, mandatos para ministros do STF, quarentena para quem deixa o cargo e criticou a presença de magistrados em festas de empresários. Também disse que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, “não precisava ter ido” à festa de Daniel Vorcaro em Londres e que “chamou a atenção” dele quando soube.

São falas que, em outro momento, seriam tratadas como traição pela base. Agora funcionam como oferta eleitoral para o eleitor que o governo nunca conseguiu conquistar de forma consistente. A pergunta que sobra é simples: ele concorda de fato e vai cumprir, ou fala o que o momento exige? O histórico recente — anúncio de reajuste depois do Orçamento sem reajuste, posicionamento sobre maioridade depois de o tema travar no próprio campo — sugere a segunda hipótese.

Impunidade como premissa

Lula não enfrenta, neste ciclo, o risco de ser cobrado judicialmente pelo uso da máquina pública na reta final. A máquina está nas mãos dele. O Supremo está no centro da crise que ele mesmo descreveu. A avaliação interna é de que nada disso se transforma em processo contra o ocupante do Planalto. Ele pode aplicar recurso do Estado em populismo eleitoral e seguir. Outros presidentes foram condenados por condutas semelhantes; a diferença, nesta conta, é de poder, não de fato.

O cinismo não é só o da fala. É o da sequência: Orçamento sem reajuste, anúncio de aumento, declaração de que “não sabia”, posicionamento contrário ao histórico da própria militância sobre maioridade e sobre o Supremo, tudo no mesmo pacote de reta final. A base que sempre lutou contra redução de maioridade e contra “caça” a ministros assiste em silêncio ou justifica como tática.

Cabe ao eleitor decidir se o que foi dito na sabatina tem valor de compromisso ou de campanha. O padrão dos últimos dias oferece um critério: quando a conta pública e a coerência histórica colidem com a necessidade de voto, a segunda prevalece. O restante fica para depois da urna — e para quem pagar a fatura.


#bsbtimes #brasiliaeumovo #metrópoles #eleicoes2026 #lula #bolsafamilia #sabatina #jn #populismo #cinismo



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Pela primeira vez em mais de duas décadas atrás nas pesquisas, o petista larga mão de limites. Amplia benesses estatais na reta final, empurra pauta populista no Congresso e, na sabatina do JN, diz o que sempre combateu — inclusive que “não sabia” que o Bolsa Família não tinha reajuste.

Na reta final do segundo turno, Lula se vê numa situação que não enfrentava há mais de vinte anos: atrás nas pesquisas. A reação é a de quem decide usar todas as armas — as possíveis, as improváveis e as que a própria base sempre tratou como inaceitáveis. O critério deixou de ser coerência ou conta pública. Passou a ser apenas o voto.

A conta que explode depois da urna

O primeiro movimento é o clássico do populismo de reta final: ampliar benesses estatais com custo alto e pagamento diferido. O aumento do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691, anunciado a dezessete dias do primeiro turno, é o exemplo mais visível. Duas semanas antes, a proposta de Orçamento de 2027 enviada ao Congresso não previa reajuste — o valor permaneceria em R$ 600. O último aumento significativo do benefício havia sido dado por Jair Bolsonaro em 2022, também a cem dias da eleição, e foi chamado de eleitoreiro pela oposição da época.

Na sabatina do Jornal Nacional, Lula afirmou que “não sabia” que o programa não tinha sido reajustado no terceiro mandato. Disse que confrontou ministros e que “é inexplicável que no governo do Lula alguém pense em não reajustar”. O Orçamento já estava no Congresso sem o aumento. O anúncio veio depois. O cinismo não está só na data; está na afirmação de surpresa sobre uma marca histórica do próprio governo.

O mesmo padrão se repete em outras benesses e na pressão por pautas populistas no Congresso. A máquina e o arranjo de Brasília empurram o que for necessário. Se as contas explodem daqui a um ano, se a dívida cresce, se o juro sobe e a inflação volta a corroer o salário de quem recebeu o benefício, tanto faz. O cálculo declarado é o de ganhar a eleição. O custo fica para as mesmas famílias que hoje recebem a “benção”.

O que era impensável na sabatina

Na noite de quinta-feira, no Jornal Nacional, Lula disse o que a militância sempre combateu. Sobre maioridade penal: “Enquanto cidadão brasileiro, [sobre] todo e qualquer crime hediondo, eu sou favorável a diminuir maioridade para crimes hediondos”. Aliados trataram a fala como “ponto alto” da sabatina — necessária para fechar flanco com a campanha de Flávio Bolsonaro. O PT não fechou questão. A PEC da Segurança que previa a redução gerou divergência interna e teve votação adiada. O posicionamento público, porém, veio na reta final.

No mesmo programa, ele afirmou que Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques “estão implicados” no caso Banco Master. “Tá todo mundo implicado.” Defendeu investigação ampla, mandatos para ministros do STF, quarentena para quem deixa o cargo e criticou a presença de magistrados em festas de empresários. Também disse que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, “não precisava ter ido” à festa de Daniel Vorcaro em Londres e que “chamou a atenção” dele quando soube.

São falas que, em outro momento, seriam tratadas como traição pela base. Agora funcionam como oferta eleitoral para o eleitor que o governo nunca conseguiu conquistar de forma consistente. A pergunta que sobra é simples: ele concorda de fato e vai cumprir, ou fala o que o momento exige? O histórico recente — anúncio de reajuste depois do Orçamento sem reajuste, posicionamento sobre maioridade depois de o tema travar no próprio campo — sugere a segunda hipótese.

Impunidade como premissa

Lula não enfrenta, neste ciclo, o risco de ser cobrado judicialmente pelo uso da máquina pública na reta final. A máquina está nas mãos dele. O Supremo está no centro da crise que ele mesmo descreveu. A avaliação interna é de que nada disso se transforma em processo contra o ocupante do Planalto. Ele pode aplicar recurso do Estado em populismo eleitoral e seguir. Outros presidentes foram condenados por condutas semelhantes; a diferença, nesta conta, é de poder, não de fato.

O cinismo não é só o da fala. É o da sequência: Orçamento sem reajuste, anúncio de aumento, declaração de que “não sabia”, posicionamento contrário ao histórico da própria militância sobre maioridade e sobre o Supremo, tudo no mesmo pacote de reta final. A base que sempre lutou contra redução de maioridade e contra “caça” a ministros assiste em silêncio ou justifica como tática.

Cabe ao eleitor decidir se o que foi dito na sabatina tem valor de compromisso ou de campanha. O padrão dos últimos dias oferece um critério: quando a conta pública e a coerência histórica colidem com a necessidade de voto, a segunda prevalece. O restante fica para depois da urna — e para quem pagar a fatura.


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