Por Diego Marques
Mestre em Finanças e Mercado de Capitais
Contribuição: Taigo Lucero
Especialista em Antropologia Econômica
Em períodos eleitorais, é comum observarmos movimentos mais intensos na Bolsa, no dólar e nas taxas de juros. Às vezes, basta a divulgação de uma pesquisa eleitoral ou uma declaração de um candidato para que o mercado mude de direção em poucos minutos.
Para quem não acompanha o mercado financeiro diariamente, essas reações podem parecer exageradas. Afinal, a eleição ainda não aconteceu, o novo governo ainda não tomou posse e nenhuma medida foi efetivamente adotada. Então, por que os preços mudam tão rapidamente?
A resposta é relativamente simples: o mercado não trabalha apenas com o que está acontecendo hoje. Ele tenta antecipar o que poderá acontecer amanhã.
É justamente por isso que costumo dizer que o mercado não espera o fato. Ele precifica expectativas.
Quando uma pesquisa eleitoral é divulgada, os investidores não observam apenas quem subiu ou quem caiu. Eles procuram compreender o que aquele resultado pode significar para a condução da economia, para as contas públicas, para a inflação, para os juros e para o crescimento do país.
É nesse momento que política e economia se encontram.
O MERCADO NÃO É UMA PESSOA
Antes de avançarmos, é importante esclarecer uma ideia que costuma gerar confusão.
Muitas vezes ouvimos que “o mercado gostou” ou que “o mercado não gostou” de uma notícia. Essas expressões facilitam a comunicação, mas podem transmitir a impressão de que o mercado é uma pessoa ou um grupo organizado que pensa e age da mesma maneira.
Não é assim.
O mercado financeiro é formado por milhões de pessoas e instituições. Nele atuam pequenos investidores, bancos, fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras, empresas, investidores estrangeiros e profissionais que trabalham com estratégias de curto e de longo prazo.
Cada participante toma decisões por motivos diferentes. Um investidor pode comprar ações porque acredita no crescimento de uma empresa. Outro pode vender porque precisa reduzir o risco da carteira. Um fundo estrangeiro pode trazer recursos para o Brasil em busca de juros mais elevados, enquanto outro pode retirar dinheiro por causa de mudanças no cenário internacional.
Portanto, quando a Bolsa sobe após a divulgação de uma pesquisa eleitoral, isso não significa que “o mercado escolheu um candidato”. Da mesma forma, uma queda não representa uma rejeição política unânime.
O que existe é uma mudança na percepção de risco.
O mercado procura avaliar quais cenários se tornaram mais prováveis e quais efeitos esses cenários poderão produzir sobre a economia. Quando as expectativas melhoram, os investidores tendem a aceitar mais risco. Quando aumentam as incertezas, eles se tornam mais cautelosos e passam a exigir uma remuneração maior.
POR QUE UMA ELEIÇÃO MUDA AS EXPECTATIVAS?
Uma eleição presidencial não decide apenas quem ocupará o Palácio do Planalto. Ela também influencia a maneira como o orçamento será administrado, como o governo lidará com a dívida pública, quais setores poderão receber mais investimentos e quais mudanças tributárias ou regulatórias poderão ser propostas.
Tudo isso afeta diretamente a vida das empresas e das famílias.
Quando um candidato promete aumentar determinada despesa, por exemplo, o mercado procura saber de onde virão os recursos. Haverá aumento de impostos? Redução de outros gastos? Crescimento do endividamento? A medida será temporária ou permanente?
Essas perguntas não significam que o mercado seja contrário às políticas sociais ou aos investimentos públicos. Significam apenas que toda escolha econômica possui um custo e precisa ser financiada.
Uma política pública pode ser necessária, justa e socialmente importante. Ainda assim, ela precisa caber no orçamento para ser mantida ao longo do tempo. Caso contrário, pode contribuir para o aumento da dívida, pressionar a inflação e exigir juros mais elevados.
Da mesma forma, quando um candidato fala sobre reduzir impostos, os investidores procuram entender como o governo compensará a perda de arrecadação. Quando promete grandes investimentos, surge a pergunta sobre a origem dos recursos e a capacidade de execução.
O mercado não avalia apenas a intenção. Avalia também a viabilidade.
O QUE AS PESQUISAS ELEITORAIS REALMENTE INFORMAM?
Uma pesquisa eleitoral é uma fotografia de determinado momento. Ela não prevê o futuro com certeza, mas ajuda a revelar tendências e a medir a força de cada candidatura.
Para o mercado, essas informações servem para atualizar probabilidades.
Podemos imaginar que os investidores estejam trabalhando com três cenários possíveis. Em cada um deles, um candidato diferente vence a eleição. Para cada cenário são feitas projeções sobre inflação, juros, crescimento, tributação e dívida pública.
Quando uma pesquisa mostra que um candidato cresceu, a probabilidade atribuída ao seu cenário aumenta. Se outro candidato perdeu apoio, seu peso nos cálculos diminui.
Isso acontece mesmo que nenhum deles tenha sido eleito e nenhuma medida tenha sido implementada.
O preço dos ativos muda porque as expectativas mudaram.
Naturalmente, uma pesquisa isolada não deve ser tratada como uma verdade definitiva. É preciso observar a metodologia utilizada, o tamanho da amostra, a margem de erro e, principalmente, a tendência apresentada por diferentes levantamentos ao longo do tempo.
Um único resultado pode representar apenas uma oscilação. Uma sequência de pesquisas apontando na mesma direção, por outro lado, tende a receber muito mais atenção.
COMO A POLÍTICA CHEGA À BOLSA?
O preço de uma ação depende da expectativa sobre os resultados futuros de uma empresa. Os investidores procuram estimar quanto aquela companhia poderá crescer, lucrar e distribuir aos acionistas nos próximos anos.
As decisões políticas interferem diretamente nessas projeções.
Uma mudança tributária pode aumentar ou reduzir o lucro de determinados setores. A queda dos juros pode estimular o consumo e baratear o crédito. Um programa de investimentos em infraestrutura pode beneficiar empresas de construção, energia, transporte e serviços financeiros.
Por outro lado, insegurança jurídica, interferências em empresas estatais, mudanças inesperadas nas regras ou crescimento descontrolado das despesas públicas podem aumentar o risco e afastar investidores.
Esse impacto não ocorre da mesma maneira em todas as empresas.
O varejo e a construção civil, por exemplo, costumam ser muito sensíveis aos juros. Empresas exportadoras são influenciadas pelo dólar e pelos preços internacionais. Bancos sentem os efeitos das mudanças no crédito, na atividade econômica e na regulação. Empresas estatais podem reagir de maneira mais intensa às propostas de intervenção ou alteração em suas políticas de preços.
Por isso, olhar apenas para a pontuação do Ibovespa nem sempre é suficiente. É necessário observar quais setores subiram, quais caíram e o que motivou cada movimento.
A Bolsa não é um retrato perfeito da economia atual. Em grande medida, ela representa uma expectativa sobre o que a economia poderá se tornar.
E O DÓLAR? POR QUE ELE TAMBÉM REAGE?
O dólar costuma reagir rapidamente às mudanças na confiança dos investidores.
Quando o Brasil é percebido como um país mais seguro e atrativo, investidores estrangeiros podem trazer recursos para comprar ações, títulos públicos ou investir em empresas. Para realizar esses investimentos, eles precisam adquirir reais.
O aumento da procura pela moeda brasileira tende a fortalecer o real e reduzir a cotação do dólar.
O movimento contrário também pode acontecer. Se crescem as preocupações com a dívida pública, a inflação ou a estabilidade institucional, investidores podem retirar recursos do país e buscar moedas consideradas mais seguras. Nesse caso, a procura pelo dólar aumenta e sua cotação tende a subir.
Esse movimento tem consequências que chegam à vida cotidiana.
Um dólar mais alto pode aumentar o preço de combustíveis, medicamentos, equipamentos eletrônicos, máquinas, fertilizantes e insumos utilizados pela indústria. Parte desse aumento pode ser repassada ao consumidor.
Já um real mais valorizado pode reduzir algumas dessas pressões, embora também possa diminuir a receita, em reais, de determinadas empresas exportadoras.
É importante lembrar, contudo, que o dólar não depende apenas da política brasileira. Os juros nos Estados Unidos, as decisões do Federal Reserve, a economia chinesa, os conflitos internacionais e os preços das commodities também influenciam a cotação.
Por isso, nunca é prudente explicar a alta ou a queda do dólar por um único fator.
A RELAÇÃO ENTRE ELEIÇÕES E JUROS
Talvez seja nos juros que a ligação entre política e economia fique mais evidente.
Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa buscar recursos para financiar suas despesas. Uma das formas de fazer isso é emitir títulos públicos.
Se os investidores acreditarem que a dívida continuará crescendo e que o governo poderá enfrentar dificuldades para equilibrar as contas, exigirão uma remuneração maior para continuar emprestando dinheiro.
É assim que o risco fiscal pressiona os juros.
Essa elevação não fica restrita aos títulos públicos. Ela alcança o financiamento imobiliário, o crédito para empresas, os empréstimos pessoais e as compras parceladas.
Com juros mais altos, as famílias consomem menos e as empresas encontram mais dificuldades para investir, contratar trabalhadores e ampliar suas atividades.
Por isso, o mercado acompanha com atenção as propostas fiscais apresentadas durante uma campanha eleitoral.
Responsabilidade fiscal não significa apenas cortar gastos. Também envolve definir prioridades, melhorar a qualidade das despesas, combater desperdícios, avaliar resultados e criar condições para que as políticas públicas sejam sustentáveis.
Não existe verdadeira responsabilidade social sem responsabilidade fiscal. Quando as contas públicas se deterioram, os efeitos aparecem na inflação, nos juros, no crédito e no crescimento. No final, a população mais vulnerável costuma ser a mais atingida.
A INFLAÇÃO TAMBÉM ENTRA NESSA CONTA
A inflação representa a perda do poder de compra da moeda. Quando os preços sobem de forma persistente, a renda das famílias passa a comprar menos.
Esse problema atinge toda a sociedade, mas pesa principalmente sobre quem possui menor renda e menos acesso a investimentos capazes de proteger o patrimônio.
Em períodos eleitorais, propostas de aumento de gastos são analisadas também pelos possíveis efeitos inflacionários. Se as despesas públicas crescerem sem planejamento, sem fontes de financiamento ou sem aumento correspondente da capacidade produtiva, a inflação poderá ser pressionada.
Nesse cenário, o Banco Central pode precisar manter os juros elevados por mais tempo.
O resultado é um ciclo difícil: inflação maior, juros mais altos, crédito mais caro, redução dos investimentos e menor crescimento econômico.
Isso não significa que todo aumento de gasto público seja necessariamente prejudicial. Investimentos bem planejados em infraestrutura, educação, saúde e produtividade podem gerar benefícios econômicos e sociais importantes.
A diferença está na qualidade do gasto, na fonte de financiamento e nos resultados produzidos.
Mais importante do que perguntar apenas quanto o governo gastará é perguntar como gastará, de onde virão os recursos e quais benefícios serão entregues à sociedade.
SEGURANÇA JURÍDICA E GOVERNABILIDADE
Um bom programa econômico não depende somente de boas ideias. Ele também precisa ser viável.
O presidente não governa sozinho. Para aprovar leis, reformas e mudanças importantes, precisará dialogar com o Congresso Nacional e construir apoio político.
Por isso, os investidores analisam não apenas as propostas dos candidatos, mas também sua capacidade de governar.
Um candidato pode apresentar um plano econômico tecnicamente consistente, mas enfrentar dificuldades para colocá-lo em prática. Outro pode ter maior capacidade de articulação, mas propostas pouco detalhadas.
Governabilidade significa conseguir construir consensos, respeitar as instituições e transformar projetos em políticas públicas efetivas. Não significa eliminar a oposição ou aprovar todas as medidas sem debate.
A segurança jurídica possui importância semelhante.
Empresas precisam conhecer as regras antes de realizar investimentos de longo prazo. Nenhum empresário constrói uma fábrica ou contrata centenas de funcionários sem avaliar a estabilidade dos contratos, da tributação e da legislação.
Mudanças podem e devem ocorrer quando são necessárias. O problema surge quando elas são repentinas, pouco claras ou imprevisíveis.
O capital aceita correr riscos, mas precisa conseguir calculá-los.
Quando não há previsibilidade, o investimento é adiado ou direcionado para outro país.
O PESO DAS DECLARAÇÕES E DAS REDES SOCIAIS
Hoje, uma frase publicada nas redes sociais pode influenciar o mercado antes mesmo de ser explicada.
Uma declaração sobre aumento de gastos, mudança na política de preços de uma estatal, intervenção no Banco Central ou alteração tributária pode provocar reações imediatas na Bolsa, no dólar e nos juros.
Algumas dessas reações são ampliadas por sistemas automatizados de negociação. Palavras-chave são identificadas e milhares de operações podem ser executadas em poucos segundos.
Nesse contexto, a comunicação de um candidato também passa a ser uma questão econômica.
Falas contraditórias ou improvisadas podem gerar insegurança. Propostas bem explicadas, acompanhadas de números e de uma equipe qualificada, podem transmitir maior confiança.
A credibilidade não nasce de uma única declaração. Ela é construída pela coerência entre o discurso, o programa, a equipe e a capacidade de execução.
COMO O INVESTIDOR DEVE SE COMPORTAR?
Em ano eleitoral, o principal cuidado é não transformar preferência política em estratégia de investimento.
É natural que cada pessoa tenha suas convicções. O problema começa quando essas convicções levam a decisões financeiras impulsivas.
Apoiar um candidato não significa que todos os ativos supostamente beneficiados por ele subirão. Rejeitar outro candidato também não significa que o investidor deva vender todo o patrimônio.
Mesmo quando o resultado eleitoral é previsto corretamente, a reação do mercado pode surpreender. Isso acontece porque aquele cenário pode já estar incorporado aos preços.
Em outras palavras, não basta acertar quem vencerá a eleição. É preciso saber o que os demais investidores já esperavam.
Outro erro comum é tomar decisões com base em uma única pesquisa, manchete ou declaração. Informações isoladas precisam ser analisadas dentro de um contexto mais amplo.
A melhor proteção continua sendo uma carteira diversificada, construída de acordo com os objetivos, o prazo e a tolerância ao risco de cada investidor.
Manter uma reserva de emergência, evitar concentração excessiva e não utilizar dinheiro necessário no curto prazo em operações especulativas são cuidados importantes em qualquer momento — e se tornam ainda mais relevantes durante períodos eleitorais.
Investir bem exige método. A emoção pode participar do voto, mas não deve comandar o patrimônio.
A POLÍTICA IMPORTA, MAS NÃO EXPLICA TUDO
As eleições exercem influência sobre o mercado, mas não são o único fator relevante.
O Brasil está inserido em uma economia global. Uma decisão sobre os juros norte-americanos pode afetar o dólar e a Bolsa brasileira. Uma desaceleração da China pode atingir as empresas exportadoras. Uma crise internacional pode provocar a saída de recursos de diversos países emergentes ao mesmo tempo.
Além disso, inflação, atividade econômica, lucros empresariais e preços das commodities continuam influenciando os ativos, independentemente das eleições.
Por isso, toda análise precisa separar correlação de causalidade.
Se a Bolsa subir no mesmo dia em que uma pesquisa for divulgada, isso não prova que a pesquisa foi a única causa do movimento. É necessário verificar o horário da divulgação, a reação dos juros, o comportamento de outros países e as demais notícias daquele dia.
A análise responsável não procura uma explicação simples para um movimento complexo.
CONCLUSÃO
Política e mercado financeiro estão conectados porque as decisões do governo afetam a vida das famílias, o funcionamento das empresas e a direção da economia.
As eleições ajudam a definir como o orçamento será administrado, qual será a trajetória da dívida, como funcionarão a tributação e a regulação e quais serão as prioridades do país.
É por isso que pesquisas, debates, declarações e propostas econômicas movimentam a Bolsa, o dólar e os juros. Antes mesmo de uma decisão ser tomada, o mercado tenta antecipar seus efeitos.
Essa reação não deve ser confundida com preferência partidária. O mercado não declara voto. Ele calcula riscos, atualiza probabilidades e ajusta preços.
Quanto maior a clareza das propostas, maior a capacidade de avaliar seus efeitos. Quanto maior a incerteza fiscal, jurídica ou institucional, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores.
E tudo isso chega à vida real.
Chega ao financiamento da casa própria, ao crédito empresarial, ao preço dos alimentos, ao valor dos combustíveis, ao emprego e ao poder de compra das famílias.
A política define caminhos. A economia mostra os custos e as possibilidades de cada escolha. E o mercado, tentando enxergar o que existe adiante, transforma expectativas em preços.
REFERÊNCIAS
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B3. Como as eleições influenciam no sobe e desce da Bolsa? São Paulo: B3, 2022. Disponível em: https://borainvestir.b3.com.br/tipos-de-investimentos/renda-variavel/acoes/como-as-eleicoes-influenciam-no-sobe-e-desce-da-bolsa/. Acesso em: 4 set. 2026.
B3. Eleições 2026: analistas apontam cenário na Bolsa, oportunidades e alertas. São Paulo: B3, 2026. Disponível em: https://borainvestir.b3.com.br/noticias/eleicoes-2026-analistas-apontam-cenario-na-bolsa-oportunidades-e-alertas/. Acesso em: 4 set. 2026.
PÁSTOR, Ľuboš; VERONESI, Pietro. Political uncertainty and risk premia. Journal of Financial Economics, v. 110, n. 3, p. 520-545, 2013.
Nota: Este artigo possui finalidade exclusivamente educacional e informativa. Não constitui recomendação de investimento nem manifestação de apoio ou rejeição a qualquer candidatura.
