Quando estava prestes a completar 42 anos, Francisca Nobre acordou com os olhos ardendo e uma intensa sensibilidade à luz. Acreditou que fosse apenas uma alergia. Dois dias depois, surgiram náuseas, vômitos e um sintoma ainda mais preocupante: ela passou a enxergar tudo em dobro. Após um breve período de melhora, os sinais voltaram, desta vez acompanhados por intensa fraqueza muscular.
A sequência de sintomas levou Francisca a procurar atendimento médico. Os primeiros exames não identificaram a causa do problema e ela precisou passar por diferentes especialistas até receber o diagnóstico de esclerose múltipla. O impacto da notícia foi imediato. Mais do que a doença em si, ela conta que o desconhecimento sobre a condição foi o que mais a assustou naquele momento.
“Hoje eu vejo que receber o diagnóstico foi, apesar de tudo, a melhor coisa que poderia ter acontecido. A partir dali eu finalmente soube o que estava acontecendo comigo e pude começar o tratamento”, afirma. Anos depois, Francisca leva uma rotina semelhante à de qualquer outra pessoa: trabalha, mantém os estudos, cuida da casa e, em tom bem-humorado, diz que ainda encontra tempo para aproveitar a vida ao lado do marido.
Embora ainda apresente episódios ocasionais de dores musculares, dormência nos braços e alterações na visão, ela destaca que as crises se tornaram muito menos frequentes e intensas. “Às vezes passo um dia com dores musculares ou volto a enxergar duplicado, mas não se compara ao que vivi antes do diagnóstico. As crises diminuíram muito e, quando acontecem, costumam durar apenas algumas horas ou, no máximo, um dia. Antes eram vários dias de sofrimento. Ninguém gostaria de receber um diagnóstico como esse, é claro. Mas conhecer o problema foi o primeiro passo para que eu pudesse tratá-lo.”
A experiência de Francisca reforça um dos principais alertas da Campanha Agosto Laranja, movimento nacional de conscientização sobre a esclerose múltipla: quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de controlar sua evolução, reduzir a frequência das crises e preservar a qualidade de vida do paciente.
Criada em 2014 pela associação Amigos Múltiplos pela Esclerose (AME), a campanha busca ampliar o acesso à informação de qualidade, combater a desinformação e incentivar o diagnóstico precoce de uma doença que, apesar de não ter cura, pode ser controlada com tratamentos cada vez mais eficazes.
O que é?
A esclerose múltipla é uma doença autoimune, inflamatória e crônica que afeta o sistema nervoso central, formado pelo cérebro e pela medula espinhal. Nessa condição, o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que envolve e protege as fibras nervosas. Esse processo compromete a transmissão dos impulsos nervosos entre o cérebro e o restante do corpo, provocando lesões e alterações neurológicas.
As causas da doença ainda não são completamente conhecidas. Pesquisas apontam que fatores genéticos e ambientais podem contribuir para seu desenvolvimento. Histórico familiar, infecção prévia pelo vírus Epstein-Barr, baixos níveis de vitamina D, tabagismo, obesidade e alterações no funcionamento do sistema imunológico estão entre os fatores associados ao aumento do risco.
Os sintomas variam de acordo com a região do sistema nervoso central atingida e podem surgir em surtos, desaparecer por determinado período ou evoluir progressivamente.
Entre as manifestações mais frequentes estão alterações visuais, como visão embaçada, visão dupla e neurite óptica; fadiga intensa; fraqueza muscular; dormência e formigamentos nos membros; dificuldades para caminhar e manter o equilíbrio; tremores; rigidez muscular; alterações urinárias e intestinais; comprometimento da função sexual e, em alguns pacientes, dificuldades de memória, concentração e raciocínio.
Em algumas situações, os sintomas podem piorar temporariamente em ambientes muito quentes ou durante infecções.
O diagnóstico costuma representar um desafio, principalmente nas fases iniciais, porque muitos sintomas podem ser confundidos com outras doenças. Por isso, trata-se de um diagnóstico de exclusão, realizado pelo neurologista a partir da avaliação clínica e da combinação de diferentes exames.
A ressonância magnética é o principal recurso para identificar lesões características no cérebro e na medula espinhal, podendo ser complementada por exames de sangue, análise do líquor (líquido cefalorraquidiano) obtido por punção lombar, tomografia de coerência óptica (OCT) e potenciais evocados visuais.
Tratamento
Embora ainda não exista cura, os avanços da medicina transformaram o tratamento da esclerose múltipla nas últimas décadas. Atualmente, há medicamentos modificadores da doença capazes de reduzir a frequência e a intensidade dos surtos, retardar a progressão da enfermidade e diminuir o risco de incapacidades.
Durante as crises, corticoides podem ser utilizados para controlar a inflamação. Além disso, medicamentos específicos ajudam no controle de sintomas como fadiga, espasticidade, depressão e alterações urinárias, enquanto programas de reabilitação, com fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e acompanhamento psicológico, contribuem para preservar a autonomia e a qualidade de vida.
A doença acomete principalmente adultos jovens entre 20 e 40 anos e é mais frequente em mulheres, embora também possa surgir na infância ou após os 50 anos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,8 milhões de pessoas vivem com esclerose múltipla em todo o mundo. No Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem) estima que aproximadamente 40 mil pessoas convivem com a doença.
Em Goiás, o Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG) é referência no atendimento especializado por meio do Centro Goiano de Estudos da Esclerose Múltipla (Cegem), que oferece acompanhamento multidisciplinar nas áreas de neurologia, urologia, psicologia, psiquiatria e fonoaudiologia, além de sala de infusão para administração de medicamentos.
Em 2020, mesmo durante a pandemia da covid-19, o Ambulatório de Doenças Desmielinizantes da unidade atendeu 276 pacientes, sendo 144 deles com diagnóstico confirmado de esclerose múltipla.
Legislação e propostas em tramitação
No Brasil, o dia 30 de agosto é oficialmente reconhecido como o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esclerose Múltipla, instituído pela Lei Federal nº 11.303, de 11 de maio de 2006.
A data integra a Campanha Agosto Laranja e tem como objetivo ampliar o conhecimento da população sobre a doença, incentivar o diagnóstico precoce e fortalecer as ações de acolhimento às pessoas que convivem com a condição.
A legislação brasileira também reconhece a esclerose múltipla como doença grave e incapacitante para fins previstos no regime jurídico dos servidores públicos federais. A Lei Federal nº 8.112/1990 prevê a possibilidade de aposentadoria por invalidez para servidores acometidos pela doença, desde que atendidos os requisitos legais e mediante avaliação médica oficial.
No Congresso Nacional, tramita o projeto de lei nº 294/2025, que propõe a criação do Programa Nacional de Apoio às Pessoas com Esclerose Múltipla (PNAEM).
A iniciativa prevê a ampliação do acesso a tratamentos especializados, medicamentos, terapias e serviços de reabilitação; suporte psicológico aos pacientes e familiares; incentivo à pesquisa científica; campanhas permanentes de conscientização; e capacitação de profissionais de saúde, especialmente da atenção primária, para facilitar o reconhecimento precoce da doença e o encaminhamento adequado dos pacientes.
Na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) também estão em tramitação propostas voltadas ao fortalecimento das políticas públicas para pessoas diagnosticadas com esclerose múltipla.
O projeto de lei nº 4916/24, de autoria do deputado Dr. George Morais (MDB), propõe a criação da Carteira de Identificação da Pessoa com Esclerose Múltipla. A medida busca assegurar atendimento prioritário e atenção integral nos serviços públicos e privados, especialmente nas áreas de saúde, educação e assistência social.
Segundo a justificativa da proposta, a instituição da carteira também poderá contribuir para aprimorar os dados epidemiológicos da doença, ampliar o conhecimento sobre o número de pacientes no Estado e subsidiar políticas públicas voltadas ao diagnóstico precoce, ao tratamento e ao acompanhamento dos casos. O projeto aguarda parecer na Comissão de Saúde da Alego.
Outra iniciativa em análise é o projeto de lei nº 7618/25, também de autoria de Morais, que institui o Programa de Apoio às Pessoas com Esclerose Múltipla. A proposta prevê a realização de campanhas permanentes de conscientização sobre a doença, seus sintomas, formas de tratamento e locais de atendimento especializado.
Entre as ações sugeridas estão a elaboração de materiais técnicos para profissionais das redes públicas de saúde e educação, produção de cartilhas informativas, realização de campanhas educativas em espaços públicos, divulgação dos serviços de referência, incentivo à realização de pesquisas, criação de um banco estadual de dados sobre a doença e parcerias com universidades, hospitais e instituições de pesquisa. O projeto encontra-se em tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ).
As propostas apresentadas no âmbito federal e estadual têm em comum o objetivo de ampliar o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e à informação, além de fortalecer políticas públicas capazes de garantir mais qualidade de vida, inclusão e assistência às pessoas que convivem com a esclerose múltipla.
Nesse contexto, profissionais de saúde reforçam que a conscientização continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir o diagnóstico tardio e permitir que cada vez mais pacientes iniciem o tratamento no momento adequado.
Para especialistas, histórias como a da Francisca demonstram que informação e diagnóstico precoce podem transformar a trajetória da doença. Com acompanhamento especializado e tratamento adequado, muitas pessoas conseguem controlar a esclerose múltipla por longos períodos, mantendo a autonomia, a rotina profissional, os estudos, a convivência familiar e a qualidade de vida. Essa é justamente a principal mensagem do Agosto Laranja: conhecer a doença é o primeiro passo para enfrentá-la.
