Celebrada ao longo de junho, a campanha Junho Verde tem como objetivo conscientizar a população sobre a preservação ambiental e a adoção de práticas sustentáveis. Neste ano, especialistas alertam que as discussões sobre o tema ganham relevância adicional diante da necessidade de preparação para possíveis impactos provocados pelo fenômeno climático El Niño, que pode influenciar o regime de chuvas e as temperaturas em diversas regiões do país.
Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño costuma provocar alterações climáticas em escala global. No Brasil, os efeitos variam conforme a região, podendo resultar em períodos de estiagem prolongada, ondas de calor e aumento do risco de queimadas, além de episódios de chuvas intensas em determinadas localidades.
Em Goiás, a preocupação se concentra principalmente nos reflexos sobre os recursos hídricos, a produção agropecuária e a ocorrência de incêndios florestais durante os meses mais secos do ano. Por isso, órgãos ambientais e especialistas recomendam a adoção de medidas preventivas que contribuam para reduzir os impactos ambientais e sociais associados ao fenômeno.
Entre as orientações, estão: o uso racional da água, a destinação correta dos resíduos sólidos, a preservação de áreas verdes e a prevenção de queimadas, prática que representa uma das principais ameaças ao meio ambiente durante o período de estiagem. A população também é incentivada a participar de ações de educação ambiental e iniciativas voltadas à conservação dos recursos naturais.
O Junho Verde foi instituído pela Lei Federal nº 14.393, de 2022, e tem como marco o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho. A campanha busca estimular reflexões sobre a relação entre desenvolvimento econômico, preservação ambiental e qualidade de vida, promovendo o engajamento da sociedade em ações voltadas à sustentabilidade.
Além das medidas individuais, especialistas destacam a importância do planejamento por parte do poder público para enfrentar eventos climáticos extremos. Investimentos em monitoramento ambiental, proteção de nascentes, recuperação de áreas degradadas e campanhas educativas são apontados como estratégias fundamentais para fortalecer a resiliência das comunidades diante das mudanças climáticas.
Prevenção a incêndios
Em Goiás, a previsão de chegada do El Niño reforça a preocupação da campanha Junho Verde com a prevenção aos incêndios florestais, que podem começar a ocorrer já no início do segundo semestre. Embora o fenômeno não provoque incêndios diretamente, ele pode favorecer períodos mais prolongados de estiagem, temperaturas elevadas e baixa umidade do ar, aumentando o risco de propagação do fogo.
Para enfrentar o período crítico, o Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO) intensificou ações de prevenção e preparação, como a construção de aceiros, realização de queimas prescritas em unidades de conservação, capacitação de cerca de 180 brigadistas e fortalecimento de parcerias com órgãos estaduais, municipais e produtores rurais.
A corporação também mantém campanhas de educação ambiental e ações de conscientização voltadas à população. Segundo o CBMGO, os incêndios têm origem majoritariamente em ações humanas, o que torna a prevenção a principal ferramenta para reduzir os danos ambientais, econômicos e sociais.
Entre as orientações, estão: evitar queimadas para limpeza de terrenos ou descarte de resíduos, manter lotes urbanos limpos e adotar medidas preventivas nas propriedades rurais, como a manutenção de aceiros e a proteção de áreas sensíveis. Em caso de focos de incêndio, a recomendação é acionar imediatamente o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.
O CBMGO destaca, ainda, que as medidas preventivas já vêm apresentando resultados positivos. Ações realizadas em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) têm garantido a redução de aproximadamente 86% da área queimada nos parques estaduais, reforçando a importância do planejamento e da atuação integrada no combate aos incêndios florestais.
Gestão hídrica e adaptação climática
A professora Juliana Ramalho, especialista em climatologia do Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA/UFG), afirma que a preparação para os efeitos do fenômeno El Niño deve ser baseada em adaptação climática e gestão de riscos. Para a pesquisadora, as ações devem se concentrar na adoção de medidas preventivas contra a instalação de uma possível crise hídrica, uma vez que já há alertas sinalizando para o aumento de chuvas irregulares, temperaturas elevadas e maior evaporação da água no solo, nos rios e reservatórios.
A especialista destaca que Goiás e outras áreas do centro-oeste estão entre as regiões que podem sofrer com a intensificação da escassez de água em períodos influenciados pelo El Niño. Segundo ela, o enfrentamento do fenômeno exige acompanhamento constante das condições climáticas e dos recursos hídricos.
“É fundamental fortalecer o monitoramento climático e hidrológico, acompanhar previsões sazonais, níveis de reservatórios, umidade do solo e a situação das bacias hidrográficas”, explica Juliana Ramalho. De acordo com a especialista, essas informações permitem que governos, produtores rurais, companhias de saneamento e a população adotem ações preventivas, reduzindo a dependência de medidas emergenciais.
Entre as estratégias apontadas, estão: redução de perdas e desperdícios de água, melhorias na infraestrutura de abastecimento e a preservação de áreas essenciais para a manutenção dos recursos hídricos, como nascentes, matas ciliares e regiões de recarga de aquíferos.
No setor agropecuário, a pesquisadora ressalta a importância de ajustar calendários agrícolas, aperfeiçoar sistemas de irrigação e adotar práticas de conservação do solo e da água. Já nas cidades, ela destaca a necessidade de combater vazamentos, ampliar reservas e incentivar o uso racional da água por todos os setores da sociedade, incluindo indústrias e atividades produtivas.
Para Juliana Ramalho, a adaptação ao El Niño envolve três pilares: informação climática de qualidade, gestão eficiente dos recursos hídricos e justiça socioambiental. Segundo ela, os impactos da escassez hídrica não são distribuídos igualmente, atingindo com maior intensidade populações periféricas, comunidades rurais, pequenos produtores e atividades econômicas dependentes das condições ambientais.
“A resposta ao El Niño precisa combinar ciência, planejamento territorial e políticas públicas”, afirma a professora. A adoção de estratégias integradas, segundo ela, é fundamental para aumentar a capacidade de enfrentamento diante das mudanças no comportamento do clima.
Ações legislativas
Na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), o compromisso com pautas ambientais e iniciativas voltadas à sustentabilidade tem sido pauta de ações promovidas pela Frente Parlamentar em Defesa da Transição Climática Justa e Promoção dos Créditos de Carbono como Solução Sustentável.
Segundo a coordenadora do colegiado, deputada Rosângela Rezende (Agir), os debates sobre transição climática, preservação ambiental e soluções sustentáveis seguem sendo acompanhados de forma permanente.
Entre as iniciativas apoiadas, está o Programa Virada Ambiental, projeto que reúne municípios goianos em ações de conscientização, recuperação ambiental e valorização dos recursos naturais. A edição de 2026 foi lançada recentemente e conta com a participação de mais de 200 municípios, promovendo atividades como educação ambiental, produção de mudas, recuperação de nascentes e incentivo à preservação.
Rosângela Rezende destaca que a transformação ambiental depende da participação da sociedade e da construção de uma cultura de sustentabilidade. Para fortalecer o programa, a deputada destinou R$ 50 mil em recursos do mandato, incluindo investimentos para o desenvolvimento de um aplicativo que pretende ampliar o alcance das ações e aproximar a população das práticas de preservação.
“A preservação ambiental é um compromisso permanente. É por meio de iniciativas como a Virada Ambiental que conseguimos transformar a consciência em ação e deixar um legado positivo para as futuras gerações”, afirmou.
A parlamentar também ressalta que ações de educação ambiental e envolvimento comunitário são fundamentais para enfrentar desafios relacionados às mudanças climáticas, aliando políticas públicas, inovação e participação social na busca por soluções sustentáveis.
