Durante a sessão solene em homenagem a profissionais que contribuem para a inclusão de pessoas autistas e colaboram com o avanço social e a construção de uma sociedade mais justa, de iniciativa da deputada Rosângela Rezende (Agir), diversas autoridades no assunto se pronunciaram.
Após o pronuciamento da deputada, a primeira a falar foi a presidente do Instituto dos Raros, Christiane de Faria Toledo da Silveira. Ela disse que também representa o terceiro setor e administra recursos com um olhar muito próprio para fazer com que eles cheguem até as pontas.
Segundo Christiane Silveira, o autismo é um grande desafio para a sociedade moderna, que vem adquirindo um olhar diferente dos antepassados. Para trabalhar com o autismo, disse, nada melhor do que estar cercada por uma equipe multiprofissional. Ela lembrou que o autismo está associado a uma alteração genética. “E não vem desacompanhado, ele sempre está associado com alguma outra alteração, normalmente alguma síndrome.”
Invisibilidade
Professora de Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG), Sulamita Sousa Silva destacou os desafios enfrentados dentro e fora do ambiente acadêmico, reforçando a necessidade de mais informação, acolhimento e políticas de inclusão. Diagnosticada há dois anos, a docente afirma que a descoberta veio a partir da observação do próprio filho, também autista. Segundo ela, o diagnóstico foi um marco de compreensão sobre experiências vividas ao longo da vida, muitas delas marcadas por sobrecarga emocional, crises de ansiedade e dificuldades de adaptação em ambientes pouco acessíveis.
Sulamita Silva chamou atenção para a invisibilidade do autismo em adultos, especialmente nos casos de nível 1 de suporte, frequentemente classificados como “funcionais”. “O fato de a pessoa conseguir desempenhar suas funções não significa ausência de dificuldades. Existe um custo alto por trás dessa adaptação constante”, pontua.
Myriam Cerqueira, cofundadora da organização Emotrack também subiu à tribuna para seu pronunciamento e revelou que doravante a empresa fará o lançamento de um aplicativo que chega para auxiliar mães de autistas e profissionais. Ele é gratuito e pode ser testado por qualquer pessoa que tenha interesse em se aprofundar no mundo neurodivergente. A proposta é que seu conteúdo possa trazer insights e identificar não somente o autismo, mas também compreender qual é o nível do autismo.
O presidente do Instituto Felipe Moura, José Augusto Ribeiro de Moura, também apresentou um novo aplicativo voltado à identificação precoce do autismo, desenvolvido a partir da sua própria experiência como pai. Segundo ele, o diagnóstico do filho só foi confirmado aos 4 anos, o que motivou a criação da ferramenta.
Inteligência artificial
O aplicativo Nexisx utiliza inteligência artificial para realizar triagens iniciais acessíveis, com possibilidade de identificação de sinais já a partir dos 16 meses de idade. A proposta é reduzir o tempo médio de diagnóstico no Brasil e ampliar o acesso das famílias a informações e encaminhamentos.
Além da triagem, a plataforma reúne serviços como telemedicina, acompanhamento multiprofissional e suporte às famílias, com foco em oferecer um atendimento mais integrado. Segundo Moura, a iniciativa busca contribuir para a causa autista por meio da tecnologia e da informação, facilitando o diagnóstico e o acesso ao tratamento adequado.
Em seguida, o biólogo e geneticista Ricardo Goulart Rodovalho explicou como foi criado o aplicativo Nexisx, que num segundo momento vai contar também com a contribuição da genética para pacientes que tiverem essa indicação. Ele afirmou que por ter um componente genético muito forte, o paciente tem uma alteração genética vinculada às condições manifestadas.
Por isso, através do sequenciamento em larga escala é possível investigar exatamente qual foi a alteração genética específica em cada caso, sendo possível estabelecer a etiologia. Tudo isso favorece o diagnóstico preciso e afasta outras condições que acompanham o autismo.
No aplicativo que foi desenvolvido, existe estudo de 63 fármacos diferentes entendendo qual deles é o melhor para cada caso, já prevendo inclusive menor efeito colateral. O painel é tão sensível que podemos encontrar até achados acidentais, encontrando outras condições que sequer podem estar sendo investigadas, sendo possível prever e prevenir diversas condições, inclusive de alergias alimentares e inflamações.
“O projeto genoma humano foi o pontapé para essa nova invenção, mas no passado os custos eram muito elevados. Hoje com o avanço tecnológico é possível fazer um sequenciamento muito maior e mais preciso, num curto espaço de tempo, sendo possível assim contribuir sobremaneira com o autista. Uma grande contribuição da genética que pode redesenhar o universo autista”, celebrou o biólogo.
Apoio às famílias
Finalizando, a presidente do Movimento Famílias de Autistas de Aparecida de Goiânia, Polyana Texeira, discursou em nome dos homenageados e destacou a necessidade de políticas públicas que atendam não apenas pessoas autistas, mas também suas famílias. Ela apontou a sobrecarga enfrentada por cuidadores e as dificuldades no acesso a serviços como terapias e atendimento especializado, apesar dos direitos já garantidos em lei, e apresentou o projeto “Cuidar de Quem Cuida”, que oferece suporte jurídico, psicológico e incentivo à geração de renda para famílias atípicas.
Para encerrar, ela defendeu ações que contemplem toda a trajetória da pessoa autista, da infância à vida adulta, com foco em inclusão e dignidade.
