Ontem, durante um evento na Ceilândia, a recém-empossada governadora Celina Leão foi abordada por uma senhora que relatou esperar três anos por uma cirurgia de nódulo na adrenal/rim e dois anos por uma ressonância magnética.
A reação de Celina? Parou, chamou o assessor, anotou o telefone da cidadã e disse com todas as letras:
“Pega o telefone dela… você vai fazer sua cirurgia que eu tenho obrigação de cuidar disso… dá seu telefone que eu vou olhar isso… eu vou olhar pra senhora.”
Depois ainda emendou falando das carretas de ressonância que está contratando.
Louvável? Na superfície, parece gesto de empatia. Na prática, é um clássico “jeitinho” brasileiro com cara de autoridade.
Porque a pergunta que não quer calar é simples: como exatamente a governadora vai “resolver” o caso dessa senhora? Vai tirá-la da fila organizada por critérios clínicos da Secretaria de Saúde? Vai pular a lista de espera do SUS, que tem regras claras de priorização por gravidade, ordem cronológica e parâmetros médicos? Vai usar o cargo para criar uma fila paralela baseada em quem conseguiu falar diretamente com ela no evento?
Isso se chama violação da impessoalidade. O Direito Administrativo brasileiro é claro: a Administração Pública deve tratar todos de forma igual. Favorecimento pessoal por contato direto com a governadora fere os princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade (art. 37 da Constituição). E pode configurar ato de improbidade administrativa (Lei 8.429/1992), ou até prevaricação punível com detenção de 3 meses a um ano (art. 319 do CP) se houver interferência concreta na fila.
Celina não é assistente social. É governadora do Distrito Federal. Sua obrigação não é resolver o problema de uma pessoa que teve a sorte de encontrá-la na rua. É consertar o sistema de saúde inteiro, que vive em caos crônico, com filas intermináveis, corrupção e má gestão.
Em vez disso, ela transforma o drama de uma cidadã em cena política. O episódio foi parar nas redes sociais dela, com aquela narrativa de “governadora ativa que resolve na hora”. A poucos meses da eleição de 2026, o recado é claro: “olhem como eu sou diferente, eu cuido de vocês”.
Isso não é só mau exemplo administrativo. É propaganda eleitoral antecipada disfarçada de gesto humanitário. Usar o cargo e a máquina pública para construir imagem pessoal de “resolvo problemas” viola a Lei das Eleições (art. 36 e 73 da Lei 9.504/1997) e pode ser enquadrado como abuso de poder político.
Enquanto ela posa de salvadora de uma senhora, milhares de outros pacientes — que não tiveram a oportunidade de abordá-la pessoalmente — continuam esperando na fila conforme a lei. O SUS não pode funcionar na base do “quem conhece a governadora”.
Celina Leão está inaugurando o governo com o mesmo velho vício: personalismo, clientelismo e uso eleitoreiro da máquina estatal.
Durmam com isso. Ou acordem e observem: quando a governadora precisa “anotar o telefone” para resolver um problema de saúde, é sinal de que o sistema que ela comanda não funciona para ninguém. E quando ela usa isso para se promover, fica claro que o interesse maior não é a saúde do povo — é a própria reeleição.
#cellinaleão #gdf #sus #prevaricação #eleições2026

