Imagine a cena: Raquel Galvão Rodrigues da Silva comanda o IPREV desde 2023, mas já circula em cargos estratégicos da previdência do DF desde 2011/2012 — acesso a dados atuariais, passivos, fragilidades administrativas, tudo que o erário guarda de mais sensível.
Ao mesmo tempo, o companheiro Álvaro de Castro abre sociedade de advocacia em 2013, bem no calcanhar da entrada dela nos altos escalões. E o escritório? Passa a mover centenas de ações contra o próprio Governo do Distrito Federal — ações previdenciárias, coletivas, execuções em massa, com dezenas de substituídos por processo. Honorários que, somados, podem virar milhões.
Coincidência? Ou será que alguém aí não está jogando dos dois lados do balcão?
Será que uma pessoa com anos de acesso irrestrito a informações internas do GDF — as mesmas que revelam onde o Estado sangra — não acaba, indiretamente, beneficiando um escritório familiar que ataca exatamente essas brechas?
Primeiro é preciso deixar claro que isso não é legal, Estatuto da OAB tem vedações expressas contra a advocacia administrativa.
Regras claras, feitas para evitar exatamente isso: que quem conhece as entranhas do Estado não vire o punhal contra ele. Para analistas concursados, basta filiação a associação para afastamento de chefia — risco de conflito, dizem. Mas para a presidente, com sócia(o) em escritório que processa o DF em série? Silêncio sepulcral. Duas medidas, dois pesos, como sempre.
Doze anos de “trajetória impecável” no IPREV, de diretora jurídica a presidente, e o escritório segue firme no outro lado. Acesso privilegiado? Vantagem competitiva? Conflito materializado?
Perguntem aos servidores que pagam a conta. Perguntem ao erário que sangra. Porque enquanto uns fingem não ver, o esquema — ou a “coincidência perfeita”?
Isso não cheira a gestão pública. Cheira a farra institucionalizada.
Durmam com isso. Ou acordem e cobrem. Porque o cinismo não explica tudo — às vezes, explica demais.
