No Dia Mundial do Câncer, especialistas cobram melhorias na rede oncológica do DF
Acesso a diagnóstico precoce, fortalecimento da rede multidisciplinar de cuidados e tratamento humanizado são essenciais na luta contra o câncer, avaliam médicos e pacientes que participaram do evento
A Câmara Legislativa do Distrito Federal realizou, na noite desta quarta-feira (4), sessão solene em alusão ao Dia Mundial do Câncer, iniciativa do deputado Eduardo Pedrosa (União Brasil), presidente da Frente Parlamentar de Enfrentamento e Combate ao Câncer. O evento reuniu especialistas da área da saúde, representantes de organizações da sociedade civil e pacientes, que relataram desafios, conquistas e expectativas para o futuro da política oncológica no Distrito Federal.
Na abertura, Eduardo Pedrosa ressaltou que o câncer “não é apenas uma patologia, mas uma ruptura profunda na vida das pessoas e famílias”, destacando que o tempo representa a diferença crucial entre cura e agravamento. Ele criticou gargalos da rede pública, como a indisponibilidade do PET-CT, aparelho utilizado na detecção da doença; a demora na regulação; e a falta de medicamentos quimioterápicos — situações que, segundo o deputado, “não podem ser normalizadas”. Pedrosa também citou histórias de pacientes que enfrentam atrasos no diagnóstico por falhas em biópsias e equipamentos quebrados, reforçando que o Estado não pode permitir lacunas no atendimento.
O parlamentar destacou ainda que, apesar das dificuldades, há avanços recentes que merecem ser ressaltados. O programa “O Câncer Não Espera, o GDF Também Não”, da Secretaria de Saúde, reduziu o tempo para a primeira consulta oncológica de 81 para 9,5 dias, permitindo que cerca de 2 mil pacientes iniciassem o tratamento desde julho de 2025. Pedrosa anunciou ainda a chegada de um novo acelerador linear – equipamento usado em radioterapia externa; a reforma do 8º andar do Hospital de Base — onde funciona o setor de hematologia — com recursos parlamentares; e a continuidade da mobilização para viabilizar o Hospital do Câncer do DF, considerado fundamental para reorganizar a rede.
Representando a Secretaria de Saúde do DF (SES-DF), o médico Gustavo Ribas enfatizou a importância de políticas públicas contínuas e baseadas em evidências. Ele lembrou que o Instituto Nacional do Câncer (INCA) divulgou dados atualizados no mesmo dia da solenidade, estimando 781 mil novos casos de câncer no Brasil entre 2026 e 2028.
Em sua fala, reforçou que 40% dos cânceres poderiam ser prevenidos com hábitos saudáveis, vacinação e rastreamento adequado, mas destacou que o país ainda sofre com fragmentação, dificuldade de acesso e insuficiências estruturais. “O dia de hoje não serve apenas para estarmos alinhados com esses números, mas para buscarmos soluções políticas eficazes, contínuas e perenes que combatam essa progressão do câncer e promovam a humanização aos pacientes”, afirmou.
Para a vice-presidente da Associação Vencedoras Unidas, Denise Santos, ações concretas do poder público — como diagnóstico precoce, acesso rápido a exames, início oportuno do tratamento, medicamentos adequados e cuidado integral e humanizado — precisam ser garantidas para todas as pessoas, independentemente de lugar, renda ou condição social. “Políticas públicas eficazes não são uma concessão, são um dever do Estado”, reforçou.
Membro do Comitê Científico do Instituto Lado a Lado pela Vida, o médico Igor Morbeck destacou o aumento global de casos e a pressão que isso exerce sobre os sistemas de saúde, públicos e privados, defendendo a incorporação constante de novas tecnologias como caminho para ampliar a sobrevivência. Ao comparar avanços das últimas décadas, afirmou que “na década de 1970, menos de 50% dos pacientes oncológicos viviam cinco anos com a doença; hoje, mais de 70% dos casos são tratáveis e, em muitos cenários, potencialmente curáveis”. Morbeck reforçou ainda que prevenção, diagnóstico precoce e linhas de cuidado eficientes são pilares indispensáveis para enfrentar o cenário atual.
Desafios no enfrentamento
Profissionais da rede pública, como representantes do Hospital de Base, HUB e Hospital Regional de Taguatinga, relataram desafios do dia a dia e ressaltaram a importância de equipes multidisciplinares, reforçando que o cuidado oncológico precisa integrar acolhimento emocional, suporte familiar e atenção contínua. O oncologista Daniel Girardi alertou que o paciente vive um “labirinto de filas” que não se comunicam entre si — consulta que não garante exame, exame que não garante cirurgia, serviços espalhados e falta de regulação eficiente — situação que provoca sofrimento evitável e impacta diretamente o prognóstico.
A sessão também deu espaço às organizações do terceiro setor, que tiveram papel de destaque. Representantes das Vencedoras Unidas, Carimbo pela Vida, Abrace, Rede Feminina, ABRAPEC, Canomama, Amavi Raras, entre outras entidades, relataram experiências, campanhas, ações de acolhimento e iniciativas de mobilização social. Muitas delas atuam onde o Estado não consegue chegar, oferecendo apoio emocional, orientação, exames, combate ao abandono do tratamento e até suporte para famílias inteiras.
A vice-presidente das Vencedoras Unidas, Denise Santos, afirmou que o Dia Mundial do Câncer “não deve ser lembrado apenas como uma data, mas como um chamado à ação”, e destacou o papel central da sociedade civil na luta contra a doença.
Entre os relatos mais emocionados, mães de crianças em tratamento relembraram o colapso recente no Hospital da Criança e agradeceram à Frente Parlamentar por intervir para normalizar os serviços. Pacientes e sobreviventes também compartilharam suas vivências e agradeceram a mobilização coletiva que, segundo elas, faz diferença real na qualidade de vida de quem enfrenta o câncer.
Ao final da cerimônia, foi exibido um vídeo produzido pelas Vencedoras Unidas, seguido de um minuto de silêncio dedicado às pessoas que lutam ou já lutaram contra o câncer.
